ANO NOVO, VIDA NOVA

 

Dr. Hugo de Azevedo

 

 

S. Josemaria não gostava desse lema, quase supersticioso, de que o Ano novo traz consigo por força uma vida nova. Não é verdade: o simples virar de calendário não produz mudança nenhuma. Preferia dizer: «Ano novo, nova luta». Um novo ano convida-nos, sim, a novo empenho, a novo esforço por melhorarmos nós e por melhor servirmos os outros.

Desta vez o Novo Ano vem, aliás, carregado de ameaças, ou, pelo menos, de «suspense»: quais serão os efeitos da crise que se abateu sobre o mundo em 2008? Como se vai repetindo, neste caso a única certeza é a incerteza… Será controlável? Poderá ser resolvida em prazo útil? Procura-se no passado alguma experiência que nos oriente e na história do pensamento algum vaticínio que nos explique a situação actual; procura-se aprofundar o seu diagnóstico, para encontrar remédios…

Talvez nos convenha pensar se não serão correctas as primeiras «leis de Parkinson», formuladas por C. Northcote. Afirma o humorista que toda a receita é limitada, e, no entanto, «a tendência para cruzar esses limites parece ser universal, eterna, mas, acima de tudo, irresistível»; e que «as despesas sobem (sempre) até atingirem os vencimentos». A qualquer salário extra seguem-se despesas extra; e assim, quanto mais sobe o salário, mais crescem as dívidas… Mas nos governos a tendência ainda é mais grave, porque, enquanto o cidadão tem de reconhecer a certa altura que esgotou as suas economias, os governos raramente se dão conta disso. «Fugir para frente» é uma das tentações e um dos perigos.

O certo é que uma crise tem sempre a vantagem de nos tornar mais realistas. Esta, sem dúvida, está reclamando, pelo menos, mais sobriedade e mais solidariedade. Sobriedade para distinguir o necessário do supérfluo; solidariedade para reconhecermos que ninguém se salva sozinho. Aquele que perdeu o emprego pense nos que o perderam também; junte-se a eles, não para organizar inúteis protestos (contra quem, se todos nós estamos envolvidos?), mas para unir ideias, experiências e capacidades; para descobrir as novas necessidades; e para criar empreendimentos que lhes respondam.

Soichiro Honda começou por ver a necessidade de bens hortícolas da população citadina, depois da guerra, e facilitou-lhes as deslocações adaptando motorzitos de rega às bicicletas…