A  MORAL  NA  SELVA

 

 

 

«Os Direitos do Homem estão sempre presentes como linguagem comum e no substrato ético das relações internacionais».

 

No seu discurso à ONU, o Santo Padre recordou que só o respeito pela dignidade e a defesa dos direitos do homem constituem a unidade básica em que pode assentar a paz. A diversidade de culturas não deve ser obstáculo ao bom relacionamento universal, se por «culturas» entendermos os vários modos – históricos, regionais, concretos – de permitir e fomentar o desenvolvimento integral do homem: material, intelectual e moral.

 

A realidade, porém, obriga-nos a reconhecer que nenhuma cultura particular satisfaz perfeita e plenamente esse ideal, e não podemos esperar que o problema se resolva «em tempo útil»: hoje em dia temos de lidar com todas as culturas, quer queiramos quer não.

 

Utopia, portanto? Não. Apenas o critério certo de convivência inter-cultural: impõe-se que cada pessoa, cada comunidade, cada instância, cada empresa, abra caminhos correctos no meio da selva de leis e costumes da vida nacional e internacional. E, felizmente, podemos encontrar esse critério nos princípios gerais proclamados – e assinados – nas «magnas cartas» dos Direitos humanos.

 

Nesse sentido, é muito sugestivo (espécie de parábola) um texto de Serpa Pinto  (1846-1900), retirado da sua obra, «Como eu atravessei a África».

 

«Longe das vistas do mundo civilizado, fora desses círculos de ferro que apertam a humanidade culta a que chamam código penal e conveniências sociais, círculos que, apesar de estreitos, deixam ainda bastante latitude ao crime e à infâmia, o explorador de África, perdido no meio de povos ignaros, cujos códigos diferem essencialmente dos nossos, tendo por  única testemunha dos seus actos a Deus, por único censor das suas obras a sua consciência, precisa de ter uma força sublime para se conservar honrado e digno (...)

 

«Eu, no princípio da minha viagem, receei muito de mim mesmo. Tive lutas ingentes, lutas terríveis, por serem surdas e ignoradas (...) e, na falta de tempo para escrever um código, tomei um que acomodei ao meu uso. Os meus princípios foram os do direito natural; a minha lei, curta, mas óptima, resumiu-se nos dez preceitos do Decálogo».

 

Pe. Hugo de Azevedo