Abutres a dieta
 
Graça Franco
 
(Público, 11-07-2005)

Desta vez os abutres não conseguiram chegar às presas. No país da liberdade de Imprensa tudo o que conseguiram, para alimentar a sua sanha de sangue e pavor, foram aquelas três ou quatro imagens de feridos já devidamente tratados, a recuperar do choque. Não havia correrias, gritos, fumo, sangue a correr a jorros, membros amputados espalhados pelo chão. Nem uma cabeça decapitada pendente entre carris, nem sequer um brinquedo carbonizado ou uma mão de criancinha decepada entre ferros. Num dia com tanta notícia faltou material para abrir os telejornais da noite.
Os relatos de testemunhos, de que as rádios iam dando conta, acabavam a descrever a repetição do inferno de Atocha mas as imagens desbloqueadas para as televisões, a conta-gotas, ficaram muito aquém desses relatos de horror. Ainda bem! Só no Sábado chegavam às redacções as primeiras imagens das carruagens atingidas, sem vestígios de vitimas e fornecidas pela polícia. Tomara que pudéssemos, pelo menos desta vez, aprender com a experiência alheia. Desta, os terroristas não receberam dos media mundiais a previsível e esperada cereja no bolo da sua perfídia. A policia agiu profissionalmente e os media britânicos acabaram por corresponder com o mesmo profissionalismo : um inusitado bom senso e o costumeiro bom gosto.
Os restantes membros da abutragem de serviço chegaram atrasados ao local do crime (designação policial perfeita para descrever as zonas do ataque terrorista!) e, como se de outros vulgares crimes se tratasse, chocaram com a fleuma dos agentes britânicos e as fitas da policia que já tinham isolado a área. Mesmo o autocarro esventrado foi mostrado como se nunca tivesse estado coberto com os restos das vítimas. No final da tarde já toda a área estava coberta de cortinas plásticas, evitando o aluguer das janelas e a voracidade macabra dos zooms das grandes objectivas.
À falta de melhor, a máquina mediática global acabou limitada ao uso da impressiva imagem de uma mulher com a cara coberta por uma máscara de gaze amparada por um jovem de bata branca e luvas azuis. Mas, como o ridículo não tem limites, voltamos a encontrar o rapaz elevado à categoria de "herói" (as aspas atenuam mas não apagam a tontice!). Não porque tivesse uma história de salvamentos em série para contar mas pelo simples facto (imagine-se!), de ter visto a sua cara reproduzida na primeira página dos principais jornais do mundo. Isto diz tudo sobre o conceito de "heroísmo" que domina o burgo mediático em acelerada degenerescência demencial..
Paul Dadge - diz-nos o relato do Expresso que é esse o nome do "anónimo" da foto - recuperado do trauma não conseguiu fugir à tentação de desfrutar de mais um minuto de "glória" e regressou a King Cross para se mostrar à BBC a pretexto de querer saber o paradeiro da mulher que amparava. A sua contribuição para o salvamento reduziu-se a ouvir durante "seis minutos!" as queixas alérgicas da senhora. Depois, os paramédicos entraram e cuidaram dela. Não sabemos em que momento exacto a objectiva o fixou de bata branca e luvas azuis como se ele próprio fosse um deles. Prova-se que "um anónimo britânico" age como um qualquer popular português frequentador dos telejornais da SIC e TVI. Dadge vem provar que não há uma "superioridade" do povo britânico como nos quiseram vender naquela noite alguns analistas . "Era como se estivéssemos num simulacro de incêndio!". "Não sou nenhum herói!" terá acentuado. Alguém, por caridade, lhe deveria ter dito baixinho: não é mesmo! Mas se souber de algum que possamos entrevistar agradecíamos. O testemunho do jovem valia sempre, na vertente "sobrevivente", o que o torna insólito é o facto de o os media o apresentarem limitado à condição do " herói" da fotografia.
Resumindo: os britânicos deram uma lição de cidadania madura, fiéis à imagem que temos deles mas a diferença não estará tanto no povo ( embora este não permaneça sentado com um risinho alarve sempre que ouve o som de um alarme sem saber por onde fugir nem o que fazer em caso de perigo!). A grande diferença está, sobretudo, na elite e na forma como esta age em situação de crise. Quer estejamos a falar da gestão feita pela polícia, pelos políticos (com essa originalidade de serem ministros franceses a australianos a avançar o número de mortes de Londres...) ou pelos responsáveis dos próprios media.
Em Londres há uma concentração de turistas em nada inferior à de NY. Haveria uma série de máquinas e telemóveis disponíveis para imortalizar as cenas de pânico e não precisavam de ser britânicas. Porque não chegaram elas aos telejornais? Não assistimos ao terror em directo servido durante horas pelas televisões de todo o mundo porque a gestão da informação foi diferente. A começar pelo corte das comunicações por telemóvel. O resto foi efeito surpresa. Não se pode esconder um ataque terrorista em Londres. Se há pânico é óbvio que o vamos ver em directo no minuto seguinte. Pensou-se. Quando os media recuperaram da estupefacção já as ruas estavam seladas. A estratégia de controlo de danos estava em marcha. Só não sei o que terá acontecido ao material amador. Terá sido apreendido pela polícia como elementos decisivos para a investigação ou simplesmente recusado pelos media? Haveremos de sabê-lo, não tarda.
Pelo menos vinte mil pessoas foram evacuadas do centro de Birmingham no Sábado. O Hard Rock Café ardia em Londres mas, do incêndio não se soube mais nada durante a noite e da operação policial nada de imagens durante horas. Isto não acontece por acaso.
Imaginem por momentos o mesmo em Lisboa? Façam um esforço e admitam que a polícia selava as ruas e colocava cortinas de plástico isolando "a cena do crime". Calculam a vozearia que os media levantariam contra essa ameaça à liberdade de informação? Não estão mesmo a ver jovens aprendizes de jornalista a fazer o que preciso fosse para à hora de jantar nos garantir o direito a sentir-nos afogados em litros de sangue, corpos despedaçados e gritos de horror!
Há uma semana era só um acidente com um carro de rali. Os repórteres chegaram ao local quase ao mesmo tempo que os socorros e a imagem que dominou cerca de dez minutos de noticiário na RTP era só a de uma jovem mulher dentro do carro sinistrado (onde havia mortos) a fitar, em choque, as câmaras. Querem imagem mais violenta? Ou a violência resume-se a cenas de boxe e tiroteio em filmes de ficção?
Mas, por cá, a nova -velhíssima alta autoridade para estas matérias continua preocupada com a magna questão de saber se o Dr. António Vitorino é um político-comentador ou um comentador-político. Que lhe aproveite!
Não a preocupa (nem deve saber...) que a violência seja o pão nosso de cada dia das nossas TVs, onde o sexo marca presença logo às oito da manhã de uma segunda-feira de férias com cenas dignas da promoção de filmes pornográficos.
Na SIC noticias de há uma semana, provavelmente a mais inócua das estações nesta matéria, passava só uma reportagem de gente "sem preconceitos" (sinónimo de sem ponta de senso...) em visita ao salão erótico (eufemismo para feira de material pornográfico). O par em visita era o de casal em que a mulher estava grávida de sete meses. A visita passava entre outros mimos pela observação atenta de um pénis de silicone... e incluía uma cena de simulação de sexo "a três" com uma mulher sentada sobre o macho do casal com maneios próprios das séries pornográficas, e a grávida a receber carícias, ou lá o que era ..., da criatura montada sobre o marido. Edificante não acham? Ao meio dia, a reportagem continuava no ar! A lei da Televisão existe.